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O uso da cannabis para animais

Thais Sgobbi, médica veterinária e prescritora cannabica, revela quais os avanços das pesquisas e as possibilidades de tratamento

O uso da cannabis para animais tem sido cada vez mais estudado dentro da medicina veterinária. As pesquisas revelam que os animais, além dos humanos, também possuem sistema endocannabinoide, que se conecta aos fitocanabinoides da planta promovendo a homeostase das funções vitais.

Há registros do uso da planta para tratamento em animais, como gados, vacas e outros bichos desde o século XII na Índia. As sementes de cânhamo também tiveram utilidade entre os animais nesse período. 

“Já nos Estados Unidos, há 200 anos a planta já passou a ser prescrita com frequência como medicamento para atenuar cólicas em cavalos e surgiu a primeira pesquisa sobre o assunto, evidenciando os benefícios do cânhamo para o funcionamento dos órgãos dos animais”, segundo o relatório Cannabis no Mercado Pet, produzido pela Kaya Mind.

Ainda que o uso de cannabis para animais não esteja regulamentado, uma vez que o  CFMV (Conselho Federal de Medicina Veterinária) não valida o uso da planta, é crescente o número de tutores que procuram a cannabis para tratar patologias clínicas de seus bichinhos e por isso, muitos veterinários(as), estão se especializando nesse tipo de tratamento.

Segundo o relatório da Kaya Mind, estima-se que após o quarto ano de regulamentação, mais de 500 mil animais de estimação poderão ser beneficiados com o uso de produtos derivados da planta.

Mesmo sem uma regulamentação efetiva, a resolução Nº 1138 do código de ética do CFMV garante liberdade aos profissionais de receitarem quaisquer tratamentos que considerarem adequados, como a prescrição de medicamentos controlados para uso humano, nos quais estão classificados os derivados da cannabis, conforme a portaria SVS/MS nº 344/98.

Entrevistamos a médica veterinária e parceira da SouCannabis, Thais Sgobbi, para entender um pouco mais sobre o uso da cannabis no mercado PET.

A médica veterinária e parceira da SouCannabis, Thais Sgobbi

1) Há quanto tempo a cannabis vem sendo estudada para ser utilizada em animais?
A primeira descrição histórica do cultivo da Cannabis é de mais de 4 mil anos atrás, em uma vila Chinesa. Entre 2000 e 2018 governos de muitos países iniciaram a legalização da Cannabis com finalidade medicinal. Há anos a Cannabis vem sendo estudada em animais, principalmente em grandes centros de pesquisas no exterior, como nos EUA. No Brasil as pesquisas estão em fase crescente.

2) Quais tipos de animais possuem o Sistema Endocannabinoide e portanto, podem se beneficiar com o uso da maconha?
Além dos humanos, o sistema endocanabinoide está presente em várias espécies animais, como cães, gatos, aves, répteis, equinos e até em alguns animais primitivos como, por exemplo, a minhoca. Esse sistema é responsável pela manutenção da homeostasia do organismo, funcionando como um estabilizador fisiológico.

3) Quais patologias podem ser tratadas?
São inúmeras as indicações da Cannabis, mas podemos citar algumas quando falamos da indicação veterinária: auxilio no tratamento de convulsões e disfunções cognitivas, dores crônicas (principalmente dores neuropáticas e osteoartrites), distúrbios alimentares, auxílio no controle da agressividade e ansiedade, dermatopatias, inflamações locais ou sistêmicas, distúrbios de imunidade, controle de efeitos colaterais de quimioterapia, bem como o auxílio no tratamento do paciente oncológico. Além de outras indicações.

Thais Sgobbi em seu consultório

4) Quais as novidades que as pesquisas revelam e onde se concentram as pesquisas no brasil?
Os estudos mostram que os efeitos da Cannabis em animais são tão positivos quanto os verificados em humanos. As pesquisas no Brasil se concentram nas universidades públicas e as associações têm um papel fundamental para desenvolvimento de pesquisa e acesso ao tratamento com Cannabis, já que as mesmas dão suporte e auxílio aos pacientes e tutores que necessitam.

5) O(a) médico(a) veterinário(a) está habilitado para prescrever tanto no que diz respeito ao conhecimento, quanto pela validação do conselho de medicina veterinária?
Sim. Conforme o código de do CFMV é de direito do médico veterinário prescrever o tratamento que considere mais indicado, utilizando também de recursos humanos e matérias que o profissional julgar necessário. Entre os princípios fundamentais devemos usar de procedimentos humanitários para evitar o sofrimento e a dor dos animais.

A Anvisa e o MAPA impedem o uso da Cannabis medicinal, mas o estatuto da profissão permite que médicos veterinários receitem quaisquer tratamentos que julguem eficazes e necessários para promover o bem estar dos pacientes. Algumas associações aceitam prescrições desses profissionais, realizam atividades de pesquisa e desenvolvimento no tratamento com a Cannabis, que é por onde conseguimos garantir o tratamento aos pacientes. Todo animal possui direitos e ter o bem estar garantido é um deles. 

 

6)Quais tipos de produtos são indicados?
Hoje temos uma gama de produtos extraídos de Cannabis Sativa. Na rotina veterinária, os produtos mais indicados são o óleo da Cannabis a ser administrado por via oral, a tintura de nebulização a ser utilizada por via inalatória e a pomada para uso tópico.

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7) Quais canabinóides mais estudados e mais indicados? O óleo full spectrum também é a melhor opção, assim como no tratamento com humanos?
Os canabinoides mais estudados no momento são o THC e o CBD. O produto que deriva de uma extração integral da cannabis é chamado de extrato Full Spectrum. Nele são preservados os compostos da planta proporcionando sinergismo entre eles e por consequência, ampliando o potencial terapêutico.

Algumas espécies são mais sensíveis ao THC, como por exemplo os cães. Nessas espécies é necessário um cuidado maior na dosagem desse canabinoide, por isso é imprescindível procurar um médico veterinário apto à prescrição. Além da vulnerabilidade das espécies, existe a individualidade de cada paciente. 

A proporção dos canabinóides depende muito do tipo de patologia que o paciente apresenta. Sabemos, por exemplo, que pacientes oncológicos têm um grande benefício com um óleo que contém a proporção de THC maior, já pacientes ansiosos se beneficiam com um óleo cuja proporção de CBD seja maior. Porém isso é muito individual. 

Sempre que possível o tratamento é iniciado com uma dose menor, que é aumentada ao longo dos dias, para evitar que haja um efeito colateral muito exacerbado logo de início. Por isso, é muito importante o acompanhamento próximo no início do tratamento.

8) Quanto à alimentação, as sementes de cânhamo são indicadas para potencializar as rações?
Os derivados das sementes do cânhamo (como o óleo e a farinha) podem ser usados na produção de ração, aumentando assim seu valor nutricional. A farinha é rica em proteínas, vitaminas e minerais. O óleo é rico em gordura, ácidos graxos essenciais e proteínas. Além disso, alimentar esses animais com cânhamo pode reduzir muito o nível de estresse.

 

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