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As variedades da indústria do cânhamo

Perspectivas econômicas da cannabis além do mercado medicinal 

É fato que a popularização do uso da cannabis, bem como sua legalização, regulamentação ou descriminalização teve como ponto de partida os benefícios medicinais que essa planta oferece aos pacientes que escolhem essa via de tratamento.

Mas, existe uma outra variedade da cannabis sativa, com características e propriedades específicas, que é o cânhamo.

credito: juramidam.

Essa variedade tem impulsionado discussões, negócios e colocado a cannabis em evidência mundial, não só pelas suas propriedades medicinais, mas agora, pelas inúmeras possibilidades industriais.

Uma das principais diferenças entre elas é em relação à quantidade de THC. Enquanto o cânhamo tem teores baixos (podendo chegar a ser menos de  0,3%), a cannabis usada na medicina tem níveis que podem chegar a 30%, a depender da dosagem aplicada pelo(a) médico(a).

Cânhamo e cannabis, presentes na história da humanidade

Assim como encontramos registros históricos e milenares do uso da cannabis pelo seu poder medicinal, o uso das fibras do cânhamo como artefato para a produção de tecidos, cordas e papéis é de longa data. Evidências científicas apontam que o cânhamo foi tão importante para a humanidade, a ponto de ser uma das primeiras plantas a ser domesticada e cultivada, há mais de 10 mil anos, no período histórico chamado de “revolução agrícola”.

Mas não é preciso ir tão longe. As embarcações que seguiam pelos mares e oceanos em busca de terras desconhecidas eram empurradas pelo vento por suas velas feitas de cânhamo, assim como a roupa da tripulação e das cordas.

Obra:  ”Desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro em 1500“, de  Oscar Pereira da Silva (1865 – 1939)

Hoje em dia, o avanço das pesquisas sugere a produção de mais 25 mil produtos e subprodutos vindos do cânhamo, que podem ser aplicados em outras diversidades de áreas, como construção, produção de combustível, indústrias têxtil, farmacêutica, de alimentos, entre outras.

Brasil, uma potência mundial para a produção de cânhamo

O Brasil é considerado um dos países no mundo com maior potencial agrícola para cultivar o cânhamo e a cannabis para fins medicinais, tanto por conta da sua extensão territorial como das excelentes condições climáticas e de solo.

Essa informação é tão verdadeira que temos uma região em terras brasileiras chamada de Vale do Silício da cannabis. Em Viçosa, Minas Gerais, pesquisadores estão desenvolvendo variedades da planta mais adequadas aos trópicos. Tudo indica que se tivermos uma legislação que apoie o cultivo interno, diante dos resultados bem sucedidos que os estudos apontam, o Brasil poderá se tornar um dos maiores produtores de cannabis e cânhamo do mundo.

Segundo dados da startup cannabis Adwa, o país tem cerca de 3 milhões de quilômetros quadrados ideais para o cultivo das espécies no Brasil, tanto pensando na produção de flores para fim medicinal como do cânhamo para outras aplicações.

Crédito: Kindel Media no Pexels

A promessa brasileira para cultivo de cannabis é tão otimista que o país  poderia facilmente ultrapassar a China, que hoje é o maior produtor mundial de cânhamo.

Em se tratando de cannabis, o cultivo na América Latina faria da  região “epicentro da produção mundial de cânhamo” e o Brasil seria o ator principal de toda essa demanda.

Projeções financeiras

A consolidação da indústria da cannabis é algo certo no mercado financeiro. Os investidores do setor fazem pressão para aumentar as vendas e expandir o mercado, pois sabem do potencial da planta e das áreas de produção que ela alcança.

As atividades de fusão e aquisição de empresas do setor em 2021 foram acima do esperado e apontam para um futuro promissor em 2022. Segundo o portal Sechat “a Viridian Capital Advisors, sediada em Nova York, contabilizou 306 transações de M&A – fusão e aquisição – até 17 de dezembro, bem mais que três vezes as 86 registradas no mesmo período de 2020”. A ordem das transações ultrapassa os 10 bilhões de dólares.

A prospecção desse mercado até 2024, segundo o recente relatório Cannabis – Pesquisa, Inovação e Tendências de Mercado, a América Latina deve responder por US$ 824 milhões dos US$ 55,3 bilhões estimados para o mercado global.

Ainda que a indústria farmacêutica lidere o setor de investimentos, o uso do cânhamo em diversos setores, faz dessa espécie uma grande promessa econômica. Empresas de todos os tipos, direcionadas a bens de consumo, como alimentos, construção, beleza, têxteis, combustível, entre outras, dependem da regulamentação do mercado, desde o plantio até a produção para poderem atuar.

Fibras de cânhamo. Foto: Wikipedia

Toda essa potência econômica está sendo explorada por empresas de todo o mundo, inclusive da América Latina. 

Países como Uruguai, Paraguai, Colômbia, Equador e México, estão atualizando suas legislações para entrar nesse mercado e o Brasil, a maior promessa verde do setor, continua obsoleto na legislação e no preconceito em torno da planta. 

Existe inclusive uma Associação Latino Americana de Cânhamo Industrial (LAIHA, na sigla em inglês) para tratar diretamente dos interesses dos hermanos latinos que querem compor esse cenário de desenvolvimento cannabico.

Como está a legislação no Brasil

Atualmente, o que temos de mais significativo no Brasil em termos de legislação está no PL399/2015 um Projeto de Lei que prevê a liberação do cultivo da cannabis para fins medicinais e industriais. 

O projeto foi aprovado internamente por uma comissão especial que foi criada para avaliar suas diretrizes, mas ainda precisa ser aprovado no senado e no executivo.

Já que não tem como negar a indústria que está para se formar no Brasil, potenciais produtores de cânhamos se  juntaram para formar a Associação Nacional do Cânhamo Industrial (ANC) para apoiar e dar suporte aos associados pensando em toda exploração industrial da planta, mas assim como qualquer empresa, precisa que o processo regulatório no Brasil aconteça liberando o cultivo e toda a cadeia produtiva a partir dele, por isso,  a ANC promete atuar também nas frentes parlamentar, regulatória e judicial,

Na América Latina, oito dos 20 países que compõem a região já legalizaram o uso medicinal da planta, sendo que em três deles (Uruguai, México e Chile) liberaram também  o consumo adulto. 

Argentina, Peru, Porto Rico, Equador e Colômbia, com suas diferentes legislações autorizam o plantio e processamento de cannabis para fins médicos ou industriais.

Aplicações do Cânhamo

Listamos algumas das possíveis aplicações do cânhamo que estão mais em alta no mercado e na indústria. 

Fibras de cânhamo. Foto: Wikipedia

Uma das principais vantagens dessa planta é que ela é integralmente utilizada.

Papel

A planta de cânhamo pode produzir até quatro vezes mais papel do que as árvores convencionais. Isso corresponde a menos área de plantio e de uso de água.

E pensar que durante muito tempo os papéis eram todos produzidos de cânhamo, inclusive a primeira bíblia impressa, a Bíblia de Gutemberg, foi feita em fibra de cânhamo, assim como a Declaração de Independência dos Estados Unidos.

Construção

Já pensou em morar numa casa toda construída com hempcrete (tijolos de maconha)? Além de ser mais sustentável que a madeira ou o concreto, é mais resistente a mofo, insetos e até fogo. O hempcrete tem excelente  eficiência energética e não é tóxico.

O cânhamo também é empregado na produção de cordas, isolantes, bioplástico e outras qualidades de materiais. 

Biocombustível

O cânhamo pode produzir mais de 800 litros de biodiesel (tipo de biocombustível) por hectare por ano, um rendimento superior a outras culturas usualmente utilizadas para este fim, como soja ou girassol.

Cosmética

As sementes de cannabis concentram até 44% de óleo que aliado aos benefícios medicinais da planta são um potencial gigante para a fabricação de linhas de cosméticos.

Setor de alimentos

As sementes do cânhamo, que não contêm naturalmente THC ou CBD, são um alimento promissor para o mercado de nutrição esportiva. Cerca de  30% de suas calorias vêm das gorduras insaturadas e 25% são proteínas. Pesquisas na área de nutrição apresentam alto teor de fibras, por isso são indicadas pelos nutricionistas para dietas de emagrecimento, já que trazem uma sensação de saciedade, além de equilibrar a função intestinal e estimular a desintoxicação orgânica.

A farinha de sementes de cânhamo está começando a ser utilizada também na produção de ração para animais como porcos, bovinos e galinhas e apresenta uma série de vantagens nutricionais à frente da soja.

A BDS Analytics, empresa de pesquisa de mercado, estima que o mercado de alimentos e bebidas com presença de cannabis chegará a US $5,9 bilhões até 2024. 

Preservação ambiental

Segundo artigo publicado pelo advogado especialista em direito cannabico, Leonardo Navarro, a produção do cânhamo como substituto da madeira traz benefícios ambientais “o cânhamo pode ser cultivado entre 90 e 120 dias, 100 vezes mais rápido que o carvalho, por exemplo. O cânhamo absorve quatro vezes mais carbono do que uma floresta de tamanho semelhante”. 

O artigo ainda revela que a “consultoria australiana de ecoenergia GoodEarth Resources chancelou que ‘o cânhamo industrial é cientificamente comprovado para absorver mais CO2 (gás carbônico) por hectare do que qualquer floresta ou cultura comercial e, portanto, é o sumidouro de carbono ideal’”.

Como defensor da cannabis, Leonardo afirma: “A indústria do cânhamo industrial está chegando no Brasil e vai trazer inovação, sustentabilidade, renda, empregos, novas oportunidades de negócios e moradias de qualidade para milhares de pessoas. Para isso, é preciso construir marcos legais dessa atividade e, mais importante: desconstruir os preconceitos contra a cannabis medicinal e contra o cânhamo industrial.

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