Estudos recentes apontam benefícios da Cannabis para dor orofacial, ansiedade, bruxismo, DTM e recuperação pós-operatória
A Cannabis na odontologia deixou de ser um tema distante para se tornar um dos recursos mais inovadores na prática odontológica contemporânea. Diante do aumento da ansiedade no Brasil, é cada vez mais comum as pessoas procurarem seus dentistas relatando dor orofacial, bruxismo e DTM, como consequência do apertamento constante da mandíbula, inclusive durante o sono.
Na mesma proporção, cresce o interesse de cirurgiões-dentistas por tratamentos mais integrativos e que proporcionem mais qualidade de vida a seus paciente amparados pela ciência, que vem avançando nas pesquisas com Cannabis e revelando que seus benefícios alcançam os quadros clínicos dos pacientes odontológicos, especialmente no controle da dor, ansiedade, inflamação e disfunções neuromusculares.
Além disso, o aumento da regulamentação e da prescrição de Cannabis medicinal no Brasil abriu novas possibilidades para profissionais da odontologia que desejam se capacitar em uma área em franca expansão.
Cannabis na odontologia e o Sistema Endocanabinóide
O principal mecanismo que explica os efeitos terapêuticos da Cannabis não somente na odontologia, mas em outras áreas da saúde, está relacionado ao SEC (Sistema Endocanabinóide), um sistema fisiológico responsável pela regulação da homeostase corporal.
Descoberto na década de 1990 pelo cientista Raphael Mechoulam, o SEC participa da modulação de processos como dor, inflamação, humor, resposta imunológica, sono e estresse.
Os receptores do sistema endocanabinóide estão presentes em todo o corpo, inclusive em diversas regiões da cavidade oral, incluindo mucosa bucal, glândulas salivares, tecidos periodontais e articulação temporomandibular.
Os fitocanabinoides da planta Cannabis, como CBD (canabidiol) e THC (tetra-hidrocanabinol), interagem com esses receptores e auxiliam na modulação de respostas inflamatórias e dolorosas.
Uma Revisão Sistemática publicada no PubMed, aponta que os canabinóides possuem propriedades anti-inflamatórias, analgésicas, ansiolíticas e neuroprotetoras com potencial relevante para aplicações odontológicas.
“Formulações tópicas e intraorais de CBD apresentaram efeitos benéficos na redução da dor, tensão muscular, inflamação gengival, carga bacteriana e sintomas de úlceras aftosas. Não foram relatados efeitos adversos graves. O CBD pode servir como um adjuvante seguro no controle da dor e inflamação oral. Sua integração em protocolos de tratamento odontológico requer validação adicional por meio de ensaios clínicos padronizados e de longo prazo para garantir eficácia e segurança”, trecho retirado do resultado da revisão sistemática.
Principais aplicações da Cannabis na odontologia
A Cannabis medicinal na odontologia vem sendo estudada em diferentes contextos clínicos. Entre as principais aplicações terapêuticas estão:
- Cannabis para dor orofacial
A dor orofacial crônica é uma das condições mais estudadas dentro da odontologia canabinoide. Os canabinóides demonstram potencial para modular vias de dor neuropática e inflamatória, auxiliando no conforto e qualidade de vida dos pacientes.
Pesquisa: https://www.mdpi.com/2077-0383/14/12/4186
- Cannabis para DTM e bruxismo
Pacientes com disfunção temporomandibular (DTM) e bruxismo frequentemente apresentam tensão muscular, dor crônica e alterações relacionadas ao estresse e ansiedade.
Nesse contexto, o CBD vem sendo investigado por sua capacidade de promover relaxamento muscular, modulação inflamatória e controle da dor.
- Cannabis para ansiedade odontológica
O medo de procedimentos odontológicos ainda é uma das principais causas de evasão em tratamentos dentários.
Estudos recentes indicam que o canabidiol pode auxiliar no controle da ansiedade pré-operatória sem provocar sedação intensa, tornando-se uma alternativa promissora para pacientes com fobia odontológica, hipersensibilidade sensorial e transtornos do neurodesenvolvimento.
- Cannabis no pós-operatório odontológico
A recuperação pós-cirúrgica também está entre os campos de interesse da Cannabis na odontologia.
Pesquisas apontam que os canabinoides podem contribuir para a analgesia, redução da inflamação e melhora do conforto pós-operatório, especialmente em procedimentos mais invasivos, como cirurgias orais e implantes.
“Depois que eu conheci o uso medicinal da Cannabis eu mudei tanto a minha visão de cuidado quanto os aspectos que são discutidos pela sociedade em relação a planta, pois hoje, não enxergo uma forma de melhorar a qualidade de vida das pessoas sem trabalhar diretamente no sistema endocanabinóide, pois são muitas as possibilidades de tratamento e com certeza, o futuro da medicina já está acontecendo para quem estuda e aplica a terapia canábica”, reforça a cirurgiã-dentista, Endy Lacet.
O que dizem os estudos mais recentes sobre Cannabis na odontologia
Nos últimos anos, a literatura científica sobre odontologia canabinoide cresceu significativamente.
Revisões publicadas entre 2022 e 2025 apontam potencial terapêutico dos canabinoides em áreas como:
- Dor neuropática oral
• Inflamações periodontais
• Controle de ansiedade odontológica
• Bruxismo e DTM
• Síndrome da ardência bucal
• Modulação inflamatória em tecidos orais
• Recuperação pós-operatória
Além disso, pesquisadores investigam o possível efeito antimicrobiano e antibiofilme dos canabinóides em doenças periodontais (impede a formação de uma capa protetora em fungos e bactérias para que deixem de ser resistentes à medicação), o que pode abrir novas perspectivas terapêuticas para a odontologia nos próximos anos.
Porém, todos os estudos avaliados por diferentes revisões sistemáticas.são enfáticos em afirmar que existem fortes evidências dos benefícios da Cannabis para diversas condições clínicas, mas que é preciso investir mais em pesquisas com metodologias já consagradas pela ciência.
Regulamentação da Cannabis na odontologia no Brasil
A regulamentação da Cannabis medicinal avançou significativamente no Brasil nos últimos anos, ampliando o espaço da odontologia dentro da terapêutica canabinoide.
Atualmente, cirurgiões-dentistas podem prescrever produtos à base de Cannabis dentro de sua competência clínica, seguindo as normas da Anvisa e os princípios éticos da profissão.
Esse avanço impulsionou o crescimento da odontologia canabinóide no país, aumentando a demanda por cursos, capacitações e atualização científica na área.
Por que cirurgiões-dentistas estão buscando formação em odontologia canabinóide
O crescimento da Cannabis na odontologia acompanha uma transformação mais ampla da prática clínica contemporânea, que busca abordagens integrativas, personalizadas e baseadas em evidências científicas.
Pacientes estão cada vez mais interessados em terapias complementares para dor, ansiedade e inflamação, e os profissionais que compreendem a atuação do sistema endocanabinoide saem na frente em um mercado em expansão.
Para o cirurgião-dentista, dominar os fundamentos da odontologia canabinoide representa não apenas atualização científica, mas também diferencial profissional.
Limitações, ciência e os desafios de estudar a cannabis
Apesar dos resultados promissores, as pesquisas apontam que ainda são necessários mais estudos para garantir a eficácia do tratamento. Ainda assim, os achados são considerados relevantes por indicarem sinais concretos de segurança e viabilidade do uso dos canabinóides, um campo que cresce, em parte, impulsionado pela própria experiência de pacientes e famílias.
Esse cenário abre uma reflexão mais ampla sobre como as pesquisas com cannabis são conduzidas. Afinal, o método científico tradicional, baseado no isolamento de variáveis, nem sempre dá conta da complexidade de uma planta composta por múltiplos canabinóides e interações. Por isso, muitos estudos começam com moléculas isoladas, como o CBD, buscando parâmetros mais controláveis.
Ao mesmo tempo, o uso terapêutico da cannabis se popularizou antes mesmo da consolidação de evidências definitivas. Relatos de pacientes, familiares e profissionais de saúde têm desempenhado um papel central nesse processo.
“Há, portanto, uma dimensão de experiência que é real e consistente, mas que, do ponto de vista científico, precisa ser analisada com cautela, já que pode ser atravessada por fatores como expectativa, contexto e efeito placebo”, explica Raquel Alberti, pesquisadora e terapeuta que atende na associação SouCannabis
Pesquisadores apontam que o desafio está justamente em equilibrar esses dois campos: reconhecer o valor dos saberes construídos na prática, sem abrir mão do rigor necessário para compreender, com precisão, os efeitos das substâncias.
Há ainda uma dimensão social e política nesse debate. Quem tem acesso à pesquisa? Quais usos conseguem ser transformados em evidência reconhecida? Muitas vezes, saberes populares e históricos permanecem à margem, enquanto a validação científica depende de financiamento, instituições e interesses de mercado.
Diante disso, o campo da cannabis se constrói em uma tensão constante, entre experiência e ciência, entre o uso já consolidado na vida real e a produção de evidência formal, e também entre diferentes formas de conhecimento, algumas legitimadas e outras ainda invisibilizadas.
Fonte das pesquisas
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39505200/
https://www.mdpi.com/1422-0067/26/8/3766
https://www.mdpi.com/2077-0383/14/12/4186
