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Autismo: estudo brasileiro aponta benefícios do CBD no tratamento infantil

Pesquisa em crianças com autismo indica que o canabidiol pode ser uma alternativa viável e segura, com redução de sintomas e até diminuição de outros medicamentos.

Uma pesquisa desenvolvida por cientistas brasileiros, em colaboração com instituições internacionais, trouxe novos dados sobre o uso do canabidiol (CBD) no tratamento de crianças com autismo.

O estudo, publicado na revista científica Clinical Neuropsychopharmacology, foi conduzido pelo LabNeC (Laboratório de Neurociência Comportamental), da Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL), em parceria com pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), além de equipes da Itália e do Canadá.

A motivação da pesquisa foi investigar a segurança e a viabilidade do uso de um óleo rico em CBD em crianças com autismo, uma vez que, ao mesmo tempo em que a procura por esse tipo de tratamento aumenta, a ciência ainda carece de evidências mais robustas que comprovem seu potencial terapêutico.

Como foi feito o estudo sobre autismo e CBD

Ao todo, 30 crianças entre 2 e 15 anos foram acompanhadas ao longo de 24 semanas. Durante esse período, os participantes receberam diariamente um óleo com alta concentração de canabidiol, em uma proporção aproximada de 14,5:1 em relação ao tetrahidrocanabinol (THC), inclusive em casos em que houve redução ou suspensão de medicamentos psicotrópicos sob supervisão médica.

Resultados indicam melhora progressiva no autismo

Os pesquisadores avaliaram diferentes aspectos do desenvolvimento e comportamento das crianças, com base em observações clínicas e questionários respondidos pelos responsáveis. Entre os principais pontos analisados estavam comunicação, sociabilidade, comportamentos repetitivos, irritabilidade, atenção, hiperatividade e sono.

De acordo com os dados, os benefícios do CBD surgiram de forma progressiva ao longo do acompanhamento. Cerca de 90% das crianças completaram o estudo, o que reforça a adesão ao tratamento.

Outro dado relevante foi a possibilidade de reduzir o uso de outros medicamentos: 16 das 30 crianças conseguiram diminuir ou interromper pelo menos um fármaco, sempre com acompanhamento médico. Entre eles estavam antipsicóticos, anticonvulsivantes, antidepressivos e estimulantes.

O pesquisador e coordenador do LabNeC, Rafael Mariano de Bitencourt, revela que o principal objetivo do estudo foi investigar, de forma científica, uma prática já presente na vida de muitas famílias.

“A ciência precisa olhar para o que já acontece na vida real. Muitas famílias vêm utilizando produtos à base de CBD de forma empírica, e cabe à pesquisa investigar, de maneira ética e responsável, os potenciais benefícios e riscos dessas práticas.” 

Segurança e efeitos colaterais leves no autismo infantil

Um dos principais focos da pesquisa foi avaliar a segurança do uso do CBD em crianças. Segundo os resultados, os efeitos colaterais foram considerados leves e transitórios, incluindo aumento do apetite, leve agitação e boca seca.

Além disso, não foram observadas diferenças significativas entre as crianças que reduziram o uso de medicamentos e aquelas que mantiveram seus tratamentos anteriores, o que sugere consistência nos resultados.

Impacto também nas famílias

O estudo também identificou um efeito indireto importante: a redução do estresse parental. À medida que os sintomas das crianças diminuíam e o uso de medicamentos era ajustado, os responsáveis relataram melhora no impacto emocional e na rotina familiar.

Limitações, ciência e os desafios de estudar a cannabis

Apesar dos resultados promissores, os próprios autores destacam que o estudo possui limitações importantes. Por se tratar de uma pesquisa piloto, retrospectiva, sem grupo controle e com um número reduzido de participantes, não é possível estabelecer relações de causa e efeito definitivas.

Ainda assim, os achados são considerados relevantes por indicarem sinais concretos de segurança e viabilidade do uso do CBD no autismo infantil,  um campo que cresce, em parte, impulsionado pela própria experiência de pacientes e famílias.

Esse cenário abre uma reflexão mais ampla sobre como as pesquisas com cannabis são conduzidas. Afinal, o método científico tradicional, baseado no isolamento de variáveis, nem sempre dá conta da complexidade de uma planta composta por múltiplos canabinóides e interações. Por isso, muitos estudos começam com moléculas isoladas, como o CBD, buscando parâmetros mais controláveis.

Ao mesmo tempo, o uso terapêutico da cannabis se popularizou antes mesmo da consolidação de evidências definitivas. Relatos de pacientes, familiares e profissionais de saúde têm desempenhado um papel central nesse processo.

“Há, portanto, uma dimensão de experiência que é real e consistente, mas que, do ponto de vista científico, precisa ser analisada com cautela, já que pode ser atravessada por fatores como expectativa, contexto e efeito placebo”, explica Raquel Alberti, uma das pesquisadoras do estudo e terapeuta que atende na associação SouCannabis

Pesquisadores apontam que o desafio está justamente em equilibrar esses dois campos: reconhecer o valor dos saberes construídos na prática, sem abrir mão do rigor necessário para compreender, com precisão, os efeitos das substâncias.

Há ainda uma dimensão social e política nesse debate. Quem tem acesso à pesquisa? Quais usos conseguem ser transformados em evidência reconhecida? Muitas vezes, saberes populares e históricos permanecem à margem, enquanto a validação científica depende de financiamento, instituições e interesses de mercado.

Diante disso, o campo da cannabis se constrói em uma tensão constante, entre experiência e ciência, entre o uso já consolidado na vida real e a produção de evidência formal, e também entre diferentes formas de conhecimento, algumas legitimadas e outras ainda invisibilizadas.

Cannabis e autismo: um campo em expansão

O uso de compostos derivados da cannabis, como o CBD, tem sido cada vez mais investigado no contexto do autismo, especialmente por seu potencial de atuação em sintomas como ansiedade, irritabilidade e distúrbios do sono.

Embora ainda sejam necessários mais estudos para consolidar evidências, pesquisas como essa ajudam a avançar o debate científico e ampliar as possibilidades de cuidado para pessoas com autismo e suas famílias.

Fontes:

Universidade Federal de Santa Catarina
Sciligth
Cannabis e Saúde

Cannabis Medicinal

 

 

 

 

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